Por Ricardo A. Gallo

Os novos empreendedores sem empregados e o custo da mão de obra

Uma das peças-chave no quebra-cabeça da política monetária é a dinâmica dos salários.  Os salários impactam diretamente a inflação de serviços, uma vez que este setor é mais intenso no uso de mão de obra. O gráfico abaixo exibe a evolução da taxa real de crescimento dos preços dos serviços e dos rendimentos médios das pessoas ocupadas.

Vemos que ambos andam em paralelo. Preços de serviços e salários estão muito correlacionados, como seria de se esperar. Porém, a distância entre os dois subiu muito pós-Covid:

Hoje, os rendimentos do trabalho estão subindo cerca de 4% ao ano acima da inflação de serviços. Para piorar o quadro, o setor de serviços emprega uma parcela maior de pessoas sem carteira ou trabalhando por conta própria. E os rendimentos destas pessoas estão subindo bem acima da média geral dos rendimentos do trabalho:

Isso significa que a margem de lucro das empresas prestadoras de serviços está se comprimindo de forma dramática.  Por exemplo, num restaurante típico, a margem de lucro é de cerca de 10% da receita. E os custos de mão de obra representam cerca de 30% dos custos totais. Logo, após 3 anos de salários reais subindo 4% acima da alta dos preços de serviços, quase 40% da margem vai-se embora.

As empresas mais competitivas e de maior qualidade de serviço seguirão aumentando os seus preços, como podemos sentir no nosso dia a dia.  Em contrapartida, isso aumenta o risco de quebra das empresas menos produtivas. Embora não tenhamos dados da inadimplência por setor, a inadimplência nas empresas menores, geralmente empresas de serviços, sobe desde 2022, mesmo antes da alta de juros. Ou seja, tudo indica que o efeito das altas dos salários e a consequente redução de margens de lucro tenham causado isso.

Desde 2022 temos visto um aumento relativo dos rendimentos dos trabalhadores por conta própria em comparação com os rendimentos dos trabalhadores com carteira.  

Aqui cabe uma análise mais detalhada da nova dinâmica do mercado de trabalho. A tipificação do segmento de pessoas trabalhando por conta própria pode ser vista como uma combinação de empreendedor e empregado. Estas pessoas competem no mercado de trabalho com os CLTs através do seu menor custo trabalhista, ao mesmo tempo que se comportam como empresas cujos “lucros” variam em função da demanda por seus serviços. Logo, os seus rendimentos não se comportam como os tradicionais custos diretos do trabalho, mas são mais similares aos lucros de empresas, pois se ajustam à dinâmica da demanda mais rapidamente.  Neste sentido, cabe notar que a relação entre o número de pessoas trabalhando por conta própria e o número de pessoas que são empregadoras está subindo:

Isso explica-se pela queda do número de empresas pequenas que empregam pessoas, como vemos pelo gráfico do crescimento do número de empregadores no mercado de trabalho. Ou seja, o novo empreendedor não tem empregados.

Com rendimentos crescentes, o número de pessoas que optam por trabalhar por conta própria aumenta, da mesma forma que o número de empresas cresce nos ciclos de aquecimento da economia. Quando o número de pessoas trabalhando por conta própria sobe, atraído por rendimentos crescentes em função da maior demanda por serviços, sobra menos mão de obra disponível para empregos com ou sem carteira. Portanto, o seu efeito para os custos gerais do fator trabalho na economia é indireto.

Portanto, podemos afirmar que o mercado de trabalho tornou-se mais flexível, o que trouxe a taxa de desemprego neutra para baixo. O grupo de pessoas prestando serviços teria uma taxa de desemprego neutro muito baixa, pois sempre pode reduzir a sua jornada de trabalho.

 Assim, a segmentação correta para análise do mercado de trabalho seria:

  1. Pessoas prestando serviços. Empregadores e trabalhadores por conta própria. O primeiro presta serviços via alocação de capital e trabalho, e o segundo, só com o trabalho. Os seus rendimentos dependem da demanda total na economia e dos custos dos seus insumos.
  2. Empregados com carteira. Oferta de mão de obra tradicional com menor rigidez de rendimentos para baixo e maior estabilidade e maior vínculo com empregadores.
  3. Estoque de mão de obra disponível para os dois segmentos acima: empregados sem carteira e desempregados

O gráfico abaixo evidencia a evolução recente da taxa de crescimento do número de pessoas em cada um destes grupos. Vê-se claramente a aceleração da taxa de crescimento das pessoas prestando serviços depois do final de 2023. Isto coincide com o período de forte aceleração do PIB de serviços:

Contudo, vemos na margem que esta taxa de crescimento começou a cair, refletindo a desaceleração recente da economia:

Outro aspecto importante é a rigidez do número de trabalhadores empregados sem carteira como % do total empregado.

Mesmo com o mercado de trabalho super aquecido e a existência do mecanismo das MEI, há pessoas que ainda preferem trabalhar sem carteira. Provavelmente são pessoas que são beneficiárias de programas sociais que não querem perder o direito. Independente da questão ética desta prática, isso traz distorções importantes no mercado de trabalho e no PIB potencial, ao reduzir a oferta de trabalho para empregos de maior produtividade.

É importante ressaltar que a alta de rendimento do trabalho tem efeito negativo na lucratividade das empresas. O gráfico abaixo comprova que a participação dos rendimentos do trabalho no PIB tem subido, significando uma queda da margem de lucro das empresas.

As pessoas esquecem que o PIB é soma zero. Ao mesmo tempo, o rendimento total das pessoas que trabalham por conta própria, como % da renda nacional restrita das famílias, deu um salto relevante, em função do aumento dos rendimentos individuais e do número de pessoas nesta categoria de trabalho.

Ou seja, uma boa parte do lucro das pequenas e médias empresas está sendo transferida para as pessoas que trabalham por conta própria.  Porém, isso não vem sem custos. Os efeitos dos ciclos econômicos no nível de emprego geral serão mais fortes. Vimos o comportamento do mercado de trabalho com este novo desenho num ciclo de aceleração da atividade: uma forte aceleração dos rendimentos dos prestadores de serviços e a queda rapidíssima do desemprego. No ciclo de baixa, este processo será o oposto, com os rendimentos destes prestadores de serviços andando bem abaixo dos salários das pessoas com carteira.

Isto tem implicações para o crédito à pessoa física. O risco de crédito dos devedores que estejam no espaço que chamei de prestadores de serviços irá aumentar muito, quando comparados com o risco de se emprestar para pessoas com carteira. Estes irão ter que reduzir a sua jornada de trabalho e, assim, a sua renda. São os pequenos empresários, os terceirizados e os empreendedores individuais. Por definição, a sua renda é mais volátil do que a dos trabalhadores com carteira.

Do ponto de vista mais estrutural, os dados históricos evidenciam haver uma tendência de crescimento da demanda por este tipo de trabalho da ordem de 1,8% ao ano.

O quadro abaixo projeta a demanda estrutural de mão de obra e a sua oferta, assumindo a manutenção do nível de desemprego e da taxa de participação de pessoas no mercado de trabalho (% de adultos no mercado de trabalho.

Se a demanda por serviços oferecidos por trabalhadores por conta própria continuar a crescer 1,8% anuais e assumindo crescimento zero para trabalhadores no setor público, a demanda por funcionários com CLT no setor privado não pode crescer acima de 0,6% a.a.  Logo, a tendência de longo prazo é que os rendimentos das pessoas por conta própria continuem subindo acima dos salários CLT. Portanto, a pressão de margem nos setores que utilizam os serviços destas pessoas deve aumentar. Assistimos, desta forma, a um choque de preços relativos de mão de obra no mercado de trabalho.

Para que isso não seja, seria necessário que a produtividade das pessoas que migrem do ambiente CLT para conta própria aumente a 3% a.a. acima das pessoas CLT.  Especialistas no assunto afirmam que a gestão dos recursos humanos auxiliares (equipe de apoio à produção) nas grandes empresas não consegue extrair o seu valor total. Reuniões demais. Contudo, como mencionei em outro artigo (link no final do texto), pode ser que parte deste aumento de rendimentos das pessoas por conta própria seja decorrente apenas da arbitragem tributária. As empresas reduzem os seus custos trabalhistas quando contratam pessoas através da modalidade de MEI ou outras estruturas jurídicas. Parte deste ganho seria repassada a estes, como demonstra a queda de arrecadação de contribuições sociais pelo estado.

Outra forma de evitar que esse processo seja inflacionário seria a redução do número de funcionários públicos, cuja produtividade cai há 5 anos. A ida destas pessoas para o mercado de trabalho por conta própria aumentaria a produtividade geral da economia.

Contudo, é questionável se estas pessoas sairiam de um ambiente protegido para um mais desafiador. Mas tais pessoas atenderiam perfeitamente à demanda por mão de obra com carteira no setor privado.

De qualquer forma, as atuais taxas de crescimento da demanda por mão de obra são completamente insustentáveis. A oferta de mão de obra no Brasil cresce a 0,8% ao ano (crescimento do número de pessoas em idade para trabalhar).

Isto mostra, novamente, que o potencial de crescimento do nosso PIB é muito abaixo dos 2,5% a.a. do último ano. Logo, a dinâmica atual do mercado de trabalho traz desafios de curto prazo para o BC, que precisa trazer para baixo de 0,8% a taxa de crescimento da demanda por trabalho e mantê-la neste nível.  Caso contrário, o desemprego seguirá caindo para níveis insustentáveis, trazendo assim enormes pressões de custos para empresas e queda no investimento. Porém, a boa notícia é que esta nova dinâmica trouxe a taxa neutra de desemprego para cerca de 6%, segundo os analistas. Tudo indica que o desemprego, ou ociosidade, deverá aparecer primeiro entre as pessoas que trabalham por conta própria e que precisarão reduzir a sua jornada de trabalho.

Neste sentido, este é o pior momento possível para reduzir jornada de trabalho nos empregos com carteira, pois isso aumentaria a demanda por trabalhadores, o que forçaria o BC a manter juros altos por muito mais tempo. O momento de se fazer isso é quando o desemprego estiver elevado, como medida contracíclica. Mas esperar isso deste governo e do congresso é uma fantasia.

 Link para publicação anterior:

Ricardo A. Gallo — março de 2026.


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