Uma das coisas que me deixam mais perplexo, e deve deixar o BC com cabelo em pé, é este gráfico:

Temos o crescimento anual do número de pessoas ocupadas e a taxa de crescimento dos rendimentos reais dos trabalhos. Até 2020, eles moviam-se juntos. Após 2023, eles continuaram a andar juntos, porém os rendimentos seguem crescendo em ritmo muito maior àquele que seria esperado quando analisamos os dados de 2013 a 2020. A distância entre a linha laranja e a azul subiu demais. Ou seja, o custo da mão de obra está subindo acima do que se justificaria considerando a atual taxa de crescimento do emprego. Como explicar?
A primeira fase pós-reforma trabalhista do governo Temer veio com a pejotização. A esquerda, corretamente, entendeu que estava em curso um processo de precarização das relações de trabalho. Porém, se equivocou ao assumir que o mercado de trabalho não reage às forças da economia. A esquerda se prende a conceitos marxistas de mais de 100 anos e não entende que, numa economia livre e competitiva, a demanda por trabalho promove o ajuste de preços relativos.
O número de empregados por conta própria relativamente aos empregados com carteira no setor privado subiu bastante pós-reforma. Contudo, recentemente vemos uma queda.

E abaixo a evolução dos rendimentos relativos entre os empregados por conta própria e os com carteira:

Vemos que eles caíram na recessão de 2016, se estabilizaram até a Covid e depois dispararam.
Os gráficos acima nos mostram que provavelmente a oferta de mão de obra disponível para empregos sem carteira nos níveis atuais de remuneração tenha chegado ao seu limite. Isso explicaria a aceleração dos rendimentos destes. Desta forma, a oferta de novos empregos precisa ser feita na CLT ou os salários MEI precisariam subir muito mais.
Isso tem implicações para a dinâmica de rendimentos do trabalho.
Com a chamada pejotização da mão de obra, criaram-se dois preços diferentes para a mão de obra, tanto na ótica do empregador como do empregado. Para o empregador, mesmo nos níveis atuais de salários das MEI, ainda é mais barato contratar pessoas sem carteira. Logo, a demanda por essa mão de obra deve permanecer elevada, assim como o seu custo subir. Isso tudo faz com que os rendimentos do trabalho tenham uma alta acima daquela que seria natural dada a taxa de crescimento do mercado de trabalho, como mostrado no primeiro gráfico.
Visto que a produtividade da mão de obra (quantidade de bens e serviços por trabalhador) sobe pouco, essa alta dos custos de mão de obra aumenta o custo unitário de produção. Isto traz pressões para as margens das empresas e para a inflação.
O aperto monetário fez-se necessário em função da alta da inflação vista nos últimos 2 anos. Com custos de mão de obra em elevação e juros mais altos, a inadimplência das pessoas jurídicas disparou, enquanto a inadimplência das pessoas físicas segue relativamente controlada, muito menor do que se esperava dados os níveis de juros e endividamento atuais. Os rendimentos crescentes das pessoas físicas aumentam o apetite de crédito dos bancos para empréstimos pessoais. Já o oposto ocorre para empresas de médio e pequeno porte, com menor poder de preço, ao estarem em ambiente mais competitivo. Essa realidade pode ser vista nos dados de crédito.
A inadimplência das PF não sobe relativamente à PJ, diferentemente do que vimos em 2017. A concessão de crédito a PF relativamente a PJ, que caía até abril último, voltou a subir mesmo com os juros elevados. E o saldo total de crédito à PF relativamente à PJ acelerou-se desde março de 2025:



Ou seja, os juros altos têm afetado mais a oferta de crédito à PJ do que à PF.
A consequência disto é que a parcela da renda do trabalho no PIB está subindo. Ou seja, sobra menos renda para lucro.

Vemos que, desde 2022, esta participação só aumenta. Isso significa menos margem de lucro para o capital. A renda de capital é composta basicamente de juros, aluguéis e lucros. Com os juros altos e os aluguéis estáveis, quem está perdendo espaço são os lucros.
Desta forma, a existência de dois mercados de trabalho competitivos, com regras tributárias e benefícios trabalhistas diferentes, está criando esta distorção no custo da mão de obra e no retorno das empresas. O feitiço virou contra o feiticeiro. Trata-se de um atrito interno que não havia até 2020. Algo novo para o BC lidar.
Fiz algumas simulações a respeito do diferencial de valor dos seus rendimentos numa MEI para CLT. Considerei um jovem de 17 anos que entra no mercado de trabalho com 2 mil reais de renda (dados PNAD) e usei a rotatividade média de 3 anos por emprego (entre demissões — estimativa Caged). Nesta simulação, descobri que o valor presente de rendimentos durante a vida restante deste profissional é igual caso ele receba como MEI um salário mensal 30% acima do que recebe na CLT. Considerei o valor das rescisões a cada 3 anos, o período de desemprego esperado e o valor presente da previdência pública caso ele se aposente aos 65 anos e viva até 85 anos. Adotei nos cálculos os juros reais atuais, um aumento de produtividade de 0,5% a.a. e aumento de salário adicional de 1,5% a.a. por ano de trabalho até os 65 anos (média atual — dados PNAD). Neste cenário de equilíbrio, o empregador tem um ganho de 15% sobre o salário pago ao funcionário, quando comparado com a CLT. São cálculos aproximados, que servem apenas para dar a dimensão da arbitragem que existe atualmente, que causa este equilíbrio. Assim, é razoável entender por que a demanda por trabalhadores MEI seja alta. E os rendimentos dos trabalhadores MEI estejam subindo acima dos CLT. Já os salários CLT acompanham mais de perto a realidade do emprego, como vemos abaixo. O que reforça a tese acima:

No final, quem pagará esta conta será o estado, que vai perder arrecadação na forma de contribuições para a previdência:

E o trabalhador MEI que não poupar para cobrir a ausência de uma aposentadoria. Enquanto isso não ocorre, o cachorro seguirá correndo atrás do rabo no mercado de trabalho, com salários MEI subindo e puxando o CLT.
As empresas que empregam funcionários MEI precisam se atentar a esta realidade. Os seus modelos de negócio, que se baseiam em baixo custo de mão de obra através da contratação de MEI, podem sucumbir. Se a sua vantagem competitiva for isso apenas, já perdeu o jogo. O mercado de trabalho vai se ajustar e trazer tudo ao equilíbrio. Arbitragens tributárias um dia acabam.
E os neomarxistas vão entender que, no final, o mercado ajusta os preços. Com um mercado de trabalho apertado e desemprego baixo por muito tempo, essa arbitragem vai cada vez mais para o bolso do trabalhador. Até que o governo perceba isso e comece a tributar as MEIs.
E alguns economistas que acham haver erro nos dados de rendimento do PNAD, seria bom rever as suas opiniões. Essa turma pensa assim: se os dados não refletem o que a minha teoria prevê, eles estão errados. Obviamente, quem pensa assim não tem nenhum treino científico. E se os dados estiverem errados, que tal analisar as contas nacionais para ter certeza?
Ricardo A. Gallo — março de 2026.


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