Por Ricardo A. Gallo

Razões para o endividamento elevado das familias

A proposta do novo desenrola comove a todos. De fato, dói ver famílias tendo d pagar juros exorbitantes sobre as suas dívidas. Contudo, a solução destes problemas não seria a criação de um “bolsa juros”. Já comentei sobre isso aqui. Tampouco limitar os juros resolve o problema. Basta pensar 2 minutos. As pessoas vêm se endividando com juros elevados há alguns anos e nem por isso pararam. Ou seja, há algum problema estrutural aqui, como se fala. Porém é preciso desmitificar algumas explicações que, a meu ver, não têm fundamento.

Temos uma propensão baixíssima a poupar. Os dados macroeconómicos evidenciam isso. Poupamos 30% abaixo da média global e metade de alguns dos nossos pares. Ou seja, consumimos uma parcela grande da renda e não nos preocupamos em poupar.

Aí argumenta-se: o povo não poupa por que ganha pouco. E precisa se endividar para consumir produtos básicos, que estão cada vez mais caros. A renda dos trabalhadores vem subindo bem acima da inflação nos últimos 3 anos, de forma insustentável, acima da produtividade do trabalho. E mesmo assim as pessoas continuam se endividando a juros enormes.

Outro argumento possível, seria a falta de empregos. Estamos no menor nível de desemprego da história recente.

Outro argumento seria a concentração bancária que estaria a impedir uma queda dois juros. Nos últimos anos, a tecnologia viabilizou a chegada de novos entrantes no mercado de cre´dito, mais efricientes e competitivos do que muitos bancos tradicionais. Sejam fintechs, plataforma de varejo digital até times de futebol aderiram a isso. Nubank, C-6 e Banco Inter são exemplos de enorme sucesso, assim como Mercado Pago e Pic Pay. Mesmo assim, os juros não caíram, em função da enorme demanda por crédito. Até os bancos estatais entraram mais forte no jogo, como CEF e BB.

Há hoje uma enorme diversidade de produtos de crédito, sendo a mais recente o consignado privado e o crédito FGTS. Logo, não se trata de falta de alternativas de financiamentos a custos menores. E a concentração nestes produtos de crédito a PF segue caindo, com aumento do numero de bancos os oferecendo.

Com relação a renda pér capita, ou seja, a renda por trabalhador no Brasil ser baixa, de fato somos um pais pobre com baixa renda per capita. Contudo, a tabela abaixa evidência, que, se ajustarmos por poder de compra relativo, a nossa renda não é tão baixa. Não diferenciamos muito da média dos emergentes, incluindo China.

Contudo, a mesma coleção de países nos mostra que em termos de poupança interna (% da renda que não é gasta com consumo) estamos entre os mais baixos.

Logo, a nossa pobreza não explica a falta de poupança, refletida no endividamento elevado das famílias.

Pode-se argumentar que temos uma pior distribuição de renda  e assim temos muita gente muito pobre. A tabela abaixo mostra que sim temos uma parcela da população grande que ganha menos de US$ 8 dólares por dia (PPP) mas existem muitos países em situação pior mas que poupam mais.

Logo, as explicações tradicionais para o problema do elevado e crescente endividamento das famílias nos últimos anos são infundadas.

Não creio que as pessoas aqui sejam menos educadas financeiramente aqui do que na China ou Índia, onde a poupança é maior. Não gastamos pouco com educação pública. E temos aqui um sistema financeiro muito mais competitivo do que aqueles países. As pessoas assim tem mais meios de se educar financeiramente.

Tampouco acredito que haja uma enorme demanda reprimida por bens duráveis. Dados comparativos evidenciam que o número de residências com TV, geladeiras,fogões, micro ondas, celulares está em linha com outros países na mesma faixa de renda.

Cabe, portanto encontrar  alguma outra explicação sociocultural que explique esse comportamento. A minha escolha está centrada no tamanho do Estado. A tabela abaixo mostra que temos um estado grande sob qualquer ângulo.

O que mais impressiona é como os gastos públicos nos países em desenvolvimento são muito menores que o nosso. Um estado grande provê serviços, pensões e assistência que acabam por reduzir a necessidade de se fazer poupança precaucional. Caso não haja uma oferta de serviços públicos com saúde e educação, uma previdência sem contrapartida ou assistências sociais, as pessoas precisam poupar para poder ter uma reserva de capital para lidar com estas situações. Estamos no segundo quintil com maior gasto com proteção socia entre 70 (FMI data), ficando atrás somente de países europeus. Talvez esta seja a razão da maior taxa de poupança em outros países com renda por cabeça e pobreza similar a nossa.

Outra potencial explicação diz respeito a abundância de recursos naturais. Este estoque de poupança foi herdado por nós. Algo que não acontece em inúmeros países, em particular na Ásia. As pessoas no Brasil estão acostumadas como uma rede de proteção social maior do que a existente em outras economias emergentes.

Outra razão mais social seria a força do patriarcado no Brasil. È sabido que as mulheres são mais precavidas com dinheiro.  Quando o patriarcado é muito forte, a gestão financeira da casa e o espaço para mulheres trabalharem ficam limitados. As mães preocupam-se mais com o futuro de seus filhos. Mulheres jogam menos e bebem menos bebidas alcoólicas do que homens e a ligação entre vício e indisciplina financeira é evidente. Na medida que as decisões orçamentárias das famílias fiquem mais distantes da participação feminina nas famílias, a preocupação com poupança e disciplina financeira se reduz. Até hoje há uma repressão cultural no Brasil para que mulheres não tenham autonomia financeira. Ou poder económico. O nosso patriarcado é forte. Os nossos colonizadores portugueses vieram sem as suas famílias. Tinham concubinas aqui e depois voltavam à Portugal com o fruto do saque, abandonando mulheres e filhos aqui. Bem diferente do ocorrido na colonização americana

Acredito que seria importante economistas e sociólogos analisarem este tema com profundidade  que precisa ser abordado com maior profundidade. Não adianta ficar a combater as consequências do endividamento excessivo. É preciso entender as suas causas e criar políticas para evitá-los.


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