A teoria econômica nos fala que os rendimentos dos trabalhadores representam a produtividade marginal do trabalho. Usando dados da PNAD, podemos analisar a evolução dos rendimentos do trabalho dos trabalhadores por conta própria em relação aos rendimentos dos trabalhadores com carteira. Isso, portanto, serviria como uma boa aproximação da produtividade relativa entre ambos. E podemos comparar isso com a produtividade de toda a economia (excluindo setor agro), usando como aproximação a relação entre o IBC ex-agro ( PIB ex-agro do BC) e a população ocupada total. Esta aproximação é bem razoável, pois o número de pessoas trabalhando no agro é menos de 10% da população ocupada.
O gráfico abaixo mostra a evolução de ambos desde 2012:

Vemos que ambos caíram pós-Dilma, o que evidencia uma correlação entre eles. Contudo, pós-2022, temos um quadro bem diferente. Os ganhos relativos se aceleraram muito acima da evolução da produtividade total.
Abaixo temos o detalhe desta evolução mais recente:

Tivemos ao mesmo tempo um crescimento da produtividade total e um forte crescimento da produtividade relativa entre os que trabalham por conta própria e os que são assalariados. Embora a amostra seja muito pequena e o ciclo econômico seja muito diferente daquele vivido pós-Dilma, podemos ser levados a concluir que o aumento da produtividade relativa entre os dois tipos de emprego possa estar produzindo um aumento na produtividade geral da economia. É uma afirmação bastante ousada, mas há outros indícios de que isso possa estar acontecendo. O gráfico a seguir mostra a evolução da produtividade relativa do setor classificado pelo IBGE como outros serviços sobre a produtividade total do setor de serviços calculada pelo IBRE:

Vemos um salto enorme quando comparamos os níveis pré-covid com os atuais. Foram 9% de crescimento de produtividade relativa em 6 anos. Enquanto a produtividade total do setor de serviços cresceu nos últimos 6 anos 0,4% ao ano, a produtividade dos outros serviços subiu 1,9%. Neste mesmo período, os rendimentos das pessoas trabalhando por conta própria subiram 2,8% ao ano acima do rendimento dos empregados com carteira.
São classificados como outros serviços:
Principais Atividades Classificadas como “Outros Serviços” (CNAE 2.0 – Seção S e outras):
- Alojamento e Alimentação: Hotéis, pousadas, restaurantes, bares e serviços de bufê.
- Artes, Cultura, Esporte e Recreação: Produção teatral, musical, cinemas, museus, clubes esportivos, academias e parques de diversão.
- Serviços Pessoais e de Reparação: Reparação de computadores, eletrodomésticos, calçados e vestuário, lavanderias, cabeleireiros, manicures, serviços de alvenaria e atividades de cuidados pessoais.
- Atividades de Associações: Associações patronais, profissionais, sindicatos e ONGs.
IBGE +4
Contexto nas Pesquisas do IBGE:
- Classificação por Atividade (PNAD Contínua): A maioria dos autônomos se concentra no grupamento de “Outras atividades de serviços”, que engloba babás, passeadores de cães, higienização de estofados, reparação, entre outros.
- Trabalhadores por conta própria, segundo o IBGE, são majoritariamente classificados em “Outras atividades de serviços” (cerca de 68%). Os serviços de trabalhadores por conta própria (autônomos/MEI) são geralmente classificados no setor de Serviços nas contas nacionais, frequentemente agrupados em atividades de “serviços prestados às famílias” ou “outros serviços”, dependendo da CNAE (Classificação Nacional de Atividades Econômicas). Eles atuam de forma independente, sem vínculo CLT, emitindo RPA ou notas fiscais (MEI).
Ou seja, podemos explicar 70% da elevação dos rendimentos relativos dos empregados por conta própria por elevação de sua produtividade relativa, que corresponde, aproximadamente, à sua participação no setor de outros serviços.
Portanto, temos fortes argumentos de que tal aumento de renda não seja inflacionário.
E isso reforça a tese de que a chamada “informalização do trabalho” aumenta a produtividade na economia. Além disso, como tais trabalhadores não contam com a proteção social do Estado mediante aposentadoria, FGTS e seguro-desemprego, é natural esperar que eles poupem mais.
Logo, se minha conclusão estiver correta, temos hoje duas locomotivas puxando a produtividade de nossa economia. O setor agro e o setor de outros serviços, representado pelos trabalhadores por conta própria.
Quem disse que não temos capital humano? Ele precisa apenas ser liberado, catalizado, através do empreendedorismo. O aumento da escolarização e o maior acesso ao ensino superior prepararam uma mão de obra que talvez seja mais produtiva se aplicada ao empreendedorismo, competindo com pequenas e médias empresas que, na sua maioria, são menos produtivas, pois seus lucros não conseguem crescer ao ritmo dos rendimentos da turma por conta própria. Para se refletir.
Ricardo A. Gallo – março de 2026.
PS: De fato, este tema tem intrigado bastante os especialistas em análise da produtividade, como no link abaixo:


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